terça-feira, 22 de dezembro de 2009

[Impressões] Avatar: da fantasia ao real.

Réss Fëanáry *

Bem-vindo novamente a Thargor!

Neste final de semana, fui ver Avatar. Junto com o amor e uma amiga, peguei uma sessão das dez lotada e, graças a importantes cinco minutos de atraso (em grande parte devido à eficiência com que fomos atendidos pela mistura de lesma e bicho-preguiça que estava atrás do vidro da bilheteria), entramos na sala com o filme já começado e, enquanto tateávamos na semiescuridão até encontrar um acento vago, um cadeirante recém saído de uma nave espacial de dar inveja aos destroyers de Star Wars chegava a um mundo distante, para viver uma aventura esperada – e comentada – há quase uma década.

Passados mais cinco minutos, e já devidamente acomodado, me vi imerso numa profusão de imagens e cores e formas que me arrastaram – quase que literalmente – para dentro daquele mundo colorido e distante criado a cada novo pixel que saltava diante dos meus olhos.

A forma avatar de Jake Sully envolta pelas sementes da Árvore da Vida.

Que Avatar, filme-promessa do diretor James Cameron, é absolutamente estonteante na tela do cinema (e, graças ao 3D, fora dela também), não há dúvida. Contudo, não quero falar aqui sobre a absurda imersão tecnológica ou as inovações do cinema de captura que o tornaram o mais belo espetáculo visual ao qual tive o prazer de ver nos últimos tempos (pra não dizer em todos os tempos), até por que outros já o fizeram com muito mais propriedade do que eu, como aqui e aqui, mas, sim, de alguns aspectos que achei peculiares e que, exatamente por isso, tornaram o filme muito mais interessante.

De todas as críticas que li, dois aspectos são quase sempre utilizados para abarcar a totalidade criativo-qualitativa de Avatar; um, a história cheia de elementos clichês e; dois, o avanço tecnológico que tornou o filme pura e simplesmente um espetáculo visual, em detrimento de qualquer nuance de história aceitável.

Concordo, e discordo, de ambas as visões na mesma medida. Que a história da ganância humana pura e simples, que não se preocupa com nada nem com ninguém, é clichê, isso lá é verdade; ou que já vimos outras vezes o herói mudar subitamente de lado ante a visão de um novo conceito de vida, ou o vilão ser uma mistura de todas as piores qualidades humanas, isso lá também é verdade. Mas, diferente de outros filmes, o que Avatar traz sob estes aspectos aparentemente simplistas é algo muito mais profundo, algo que, dada a nossa condição de criatura tecnologicamente evoluída e desvinculada de qualquer ligação com nosso próprio mundo, não vemos ou, melhor dizendo, desaprendemos a ver.

Mais do que o deslumbramento visual, com Pandora, Cameron traz uma visão que poucos ainda mantêm sobre seu próprio habitat; a questão da ligação homem/terra. Pandora, seus animais, plantas e os Na’vi, os nativos deste mundo, estão unidos como um único e gigantesco organismo, interligados por uma força maior chamada Eywa, algo que, em certa medida, nos remete ao antigo mito de Gaia. Num mundo onde a (pouca) vida natural que ainda existe está espremida entre prédios e avenidas, entre cercas e conglomerados de ferro e metal e onde seus habitantes não veem mais verde que os cartazes das fachadas das lojas ou os anúncios do Greenpeace, não é difícil de perceber por que esse detalhe passa tão despercebido na tela. O que chega a ser estranhamente perturbador. Apesar de estarmos em plena era do discurso preservacionista, a visão dos espectadores parece ser a mesma dos líderes mundiais que se reuniram recentemente em Copenhague, para a Conferência do Clima; o discurso é muito bonito, desde que permaneça revestido da beleza do distanciamento e não tenha pretensões de tornar-se real.

Mais do que uma ligação espiritual, em Pandora o elo entre os seres pensantes, animais e natureza se dá de forma tátil, o que, a meu ver, foi uma das melhores sacadas do filme. Para os Na’vi, Eywa é real, pode ser sentida e vivida em cada ligação, seja com os animais, seja com as árvores que os rodeiam. E, exatamente por senti-la em suas vidas é que ela se torna tão importante. Todo o planeta está ligado e a morte de uma única planta ou animal afeta a todos de maneira igual. É como a brincadeira de derrubar dados; tire uma peça e você afeta todo o resto do jogo.

Conceitos como a morte limpa e o respeito por cada ser vivente transformam a cultura Na’vi num espelho do que éramos e num reflexo distorcido do que deixamos de ser.

No primeiro encontro entre os protagonistas, fica bem claro a discrepância que, em essência, representa o caminho que temos trilhado até aqui: Jake Sully (Sam Worthington), ou melhor, seu avatar, se vê às voltas com uma dezena de criaturas que o atacam logo após ele se perder na floresta. No meio da escaramuça, ele é ajudado por Neytiti (Zoë Saldana) que, para ajudá-lo, acaba matando uma das feras. A morte, contudo, é tratada como uma perda lamentável, culpa daquele que não soube respeitar as leis impostas pela vida da floresta. Para Neytiri, a vida tem seu valor por igual, não importa se pertença a um homem ou a um animal e o único fato que pesou em sua escolha foi a intervenção de Eywa a favor do homem. Esta é apenas uma das muitas nuances sutilmente presentes em Avatar.

Outro ponto que me chamou muito a atenção foi à questão da união da tribo; quando Jake finalmente passa pelos rituais de aprendizagem e é aceito como um membro da comunidade, sua imersão se dá através de um grande elo que se forma entre os Na’vi. Um a um, todos vão se unindo para abraçá-lo, tornando-o, assim, parte do grande corpo da aldeia. Uma forma simples e muito direta de se dizer que ninguém está sozinho no mundo.

Neytiri é, inclusive, a grande responsável por tornar o filme mais do que apenas uma experiência visual. Através dela, sentimos o sofrimento de um povo inteiro, vivemos a agonia da morte e da desesperança e sofremos a perda daquilo que nos é mais caro, seja nossa casa (a destruição da Casa da Árvore é um dos momentos mais tristes do filme) ou um ente querido que, ironia do destino, é morto por uma farpa da árvore que até então lhe tinha servido de abrigo.

E, no momento derradeiro, quando o que se tem já não é suficiente para vencer, resta a crença e o pedido sincero às forças maiores. E, fato ou fantasia, talvez seja aí que resida o frescor e a novidade do filme; mostrar de modo sutil o quanto nos distanciamos da energia mágica que nos tornou o que somos hoje e do quanto nos esquecemos de lhe retribuir a gentileza.

Ao final, fica a questão no ar, tão clara quanto as plantas fluorescentes de Pandora: até que ponto uma pedrinha de Unobtainium é mais valiosa do que toda a vida de um mundo? Essa mesma pergunta poderia ser feita, adaptando-se uma ou duas palavras, aos líderes reunidos em Copenhague.


Avatar
Ficção Científica / Ação - 12 Anos
EUA, 2009.
Direção: James Cameron.
Elenco: Sam Worthington, Zoë Saldana, Michelle Rodriguez, Sigourney Weaver.
Duração: 162 min.


* Réss fëanáry significa, em Anthár, “Saudações (seja bem-vindo), Visitante!”.


8 incursões:

  1. Demais! Eu estou até agora bobo com filme.
    Muito boa sua "critica"!

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  2. > morte, contudo, é tratada como uma perda lamentável, culpa daquele que não soube respeitar as leis impostas pela vida da floresta. Para Neytiri, a vida tem seu valor por igual, não importa se pertença a um homem ou a um animal e o único fato que pesou em sua escolha foi a intervenção de Eywa a favor do homem. Esta é apenas uma das muitas nuances sutilmente presentes em Avatar.

    Lembrando que há tribos no nosso mundo que agem dessa forma, saudando ou pedindo desculpas à caça abatida.

    Dá a impressão que eles pegaram todo o simbolismo que puderam de aborígenes, bosquímanos, e tribais de todo o mundo e fizeram de suas abstrações algo literal, concreto e comprovável: a conexão, aqui usb, com os ancestrais, por exemplo. Foi uma sacada muito boa.

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  3. Vinícus,

    Confesso que não consegui absorver nem a metade do que vi, e que já estou programando uma volta ao cinema... rs

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  4. "Lembrando que há tribos no nosso mundo que agem dessa forma, saudando ou pedindo desculpas à caça abatida".

    Luiz,
    Em certas culturas esse ritual é chamado de "Morte Limpa"; ou seja, vc só deve matar um ser vivo em face de extrema necessidade, como no caso da alimentação, por exemplo. E, mesmo assim, essa morte deve ser honrada. O filme traz várias menções às antigas culturas da terra, como a união tribal, o elo com a natureza e o respeito aos ícones totêmicos (como o toruk mactu, a união de um na'vi com o grande toruk).

    Pra mim, esse é o grande diferencial do filme.

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  5. Rober, magnificas são as informações que vc transmitiu em seu relato do filme.
    Eu ainda não fui assiti-lo, mas tenho certeza que ficarei muito mais atenta aos detalhes sutis e as nuances que vc menciona e prometo dar-lhe um feedback tão logo seja possível.
    abraços colega
    Georgette

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  6. Georgette,

    O filme é interessante sob vários aspectos e, mesmo que os que relacionei não se destaquem num 1º momento, tenho certeza que vc vai encontrar muitas outras coisas bacanas nestas 2h e poucas de filme.

    Abraço

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  7. O cinema é o templo da magia, por favor, os incrédulos e céticos do lado de fora sem direito a olhadelas. Detesto que vai para o cinema ficar dizendo clichê, muito isso, muito aquilo.Poxa relaxa aqui é pra sentir.
    Rober adorei suas observações. Já estava a fim de ir ver e agora mais ainda. Adoro Pandora, e a cor Azul. O que os críticos seriam sem os artistas? Nada! Silêncio é hora de sonhar.
    Quando o homem via em preto e branco se admirava. Mas como se cansa rapidamente de tudo dá nisso. Buscar defeitos onde existe a perfeição humana, que é quase sempre cheia de defeitos únicos que a fazem ser a melhor, dá nisso, criticas desnecessárias.
    Beijos mordidos.

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  8. Parabéns pela resenha, concordo com tudo. Avatar é o melhor filme que vejo em muito tempo... Talvez um dos melhores de todos os tempos para mim. Abraço!

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