sexta-feira, 12 de março de 2010

A alma boa de Viens

Thély en Nehraêdos, os Contos das Terras de Lá.

O primeiro deles surgiu com a alvorada, e depois outro e mais outro e mais outro, até que centenas de espectros escureceram o horizonte e transformaram a manhã do vilarejo numa noite densa, eterna. 

Poucos tiveram oportunidade de saber o que os aguardava, até ser tarde demais. Lavradores nos campos, senhoras às voltas com panelas e afazeres domésticos, crianças brincando nas vias de terra... todos, absolutamente todos, caíram vítimas da triste surpresa que o destino reservara para aquela manhã fria que, diferente de outras tantas manhãs, surgiu acompanhada do fulgor prateado de espadas selvagens e do brilho fosco, fraco, do sangue derramado por seu corte.

O povo, pouco dado a estas artes de luta e guerra, caiu rapidamente ante o exército daquele que fora chamado de Lorde e Senhor, o autoproclamado protetor daquelas terras. Poucos lutaram, quase nenhum sobreviveu. De fato, apenas uma vida saiu ilesa daquela manhã. Uma alma, alquebrada, ferida, manchada pelo sangue de tantas outras menos afortunadas.

Até agora, três dias depois daquela manhã, Viens ainda se perguntava que destino cruel o havia elegido, por que fora escolhido para ser o único a ser poupado, único a carregar nos olhos e na alma o peso de tanto sofrimento. Não entendia por que fora feito prisioneiro, quando homens mais fortes que ele tinham sucumbido, nem por que o haviam trazido até aquele castelo de torres frias e rostos pesados, ocultos sob a semiescuridão dos elmos.

— Por favor... deixe-me sair — a voz, depois de várias e tão inúteis tentativas, saiu apenas como um sussurro perceptível.

Três dias! Três longos dias que a escuridão da minúscula cela, a unidade e o constante eco das incertezas daquele lugar de pesadelo haviam transformado em eternidade.

Ninguém apareceu, ou respondeu. Como antes, como sempre!

Havia sido esquecido. Morto, como todos os seus conhecidos, amigos, parentes. Porém, sua morte era mais dolorida, pois não lhe havia sido dado à honra de conhecer a morte final, deitar-se nos braços longos de Dhëmonna1, enquanto era embalado pelo som de conchas mágicas que o levariam às terras do sul, à Nehrain2.

Em vez disso, lhe tinham reservado a morte de um metro quadrado de espaço, escura e úmida, que fazia eco em seus ouvidos a cada nova respiração. Uma morte em vida!

Na solidão de sua cela, Viens lembrou-se do brilho da alvorada cobrindo de cores novas o riacho que serpenteava pelos arredores da vila, dos campos vastos de heyjia3, luminosos à primeira luz da manhã, do sorriso radiante de Vhess. Sentiu vontade de chorar, mas as lágrimas há muito que haviam secado. Restou apenas o vazio. O nada!

Um raio atingiu seu rosto e desceu corpo abaixo. Tinha o prumo reto como uma régua, e a luz certeira como o rastro de uma flecha. Surgiu tímido e foi se alargando e se alastrando, até transformar-se numa fenda enorme que engoliu a escuridão da cela e feriu seus olhos tal qual adagas incandescentes.

Como uma benção, um vulto surgiu por entre a luz e parou a poucos passos da entrada da cela. Viens tentou fitá-lo, mas seus olhos desacostumados à presença de qualquer claridade não conseguiram sustentar a visão por muito tempo. Um braço estendeu-se no ar e desceu na vertical, depositando no chão uma bandeja quadrada. O vulto ainda se demorou um segundo, antes de retroceder para dentro da luz e evanescer, tragado pelos feixes luminosos que não tardaram em desaparecer também.

Viens tateou no escuro até que seus dedos esbarraram num cálice, uma tigela com um caldo quente e em algo que, pela consistência, devia ser uma peça de pão, embora ele já não sentisse cheiro algum que lembrasse tal coisa.

Comeu sofregamente e seu estomago, desacostumado depois de tantos dias sem sentir o peso de qualquer alimento, reagiu indignado, expulsando tudo o que acabara de receber. Viens recostou-se na parede, o pão e a tigela com o caldo firmemente presos entre as mãos trêmulas, esperando a que as convulsões lhe dessem nova chance de ingerir um gole que fosse.

No dia seguinte (já havia se passado um dia inteiro?) a luz retornou e, no meio dela, novamente o vulto. Desta vez, estava mais nítido, mais próximo. E falava!

— Coma.

Viens obedeceu. Rastejando em silêncio, aproximou-se da bandeja e arrancou um pedaço de pão, molhando-o na mistura que formava o caldo quente. Só quando o levava à boca foi que percebeu que o vulto ainda permanecia ali, entre a luz, observando-o. Ele reteve o pedaço de massa molhada entre os dedos, como se não soubesse o que fazer a seguir.

— Por favor, ajude-me — suplicou, esquecendo-se por um instante a fome que lhe retorcia as entranhas.

— Coma — repetiu o vulto. E desapareceu. Aquela noite, Viens sentiu algo se manifestar em algum lugar entre a barriga e a boca que lhe soou ligeiramente diferente das costumeiras convulsões a que era acometido por causa dos longos períodos de inanição. Outra dor, ainda desconhecida, ou uma esperança vã, talvez.

A luz tornou-se menos incisiva à medida que as visitas se multiplicavam e a sombra, mais distinta. Com o tempo, Viens passou a racionar a comida, de modo que já não passava tantas horas sem comer e, quando era visitado, seu raciocínio não o traía a custa do cheiro do pão ou do gosto da sopa, e podia ser direcionado para outro fim. Percebeu, por exemplo, que o vulto apresentava contornos femininos, a voz sugeria alguém de idade já avançada, embora ainda longe das fronteiras da quarta idade4. Parecia amigável e, de certo modo, preocupada com sua condição, ou a solidão dos dias sem sol e a confusa sensação de proximidade que as constantes visitas proporcionavam o estavam afetando, a ponto de confundir obrigação com benevolência.

— Por que estão fazendo isso comigo?

Ela demorou um longo tempo antes de responder. Os gestos denunciando antecipadamente a resposta.

— Eu... sinto por tudo isso. Mas... é preciso!

— A guerra. Isso tem alguma coisa a ver com a guerra? Meu pai...

— Você não deve se preocupar. Em breve, tudo estará terminado.

Viens aproximou-se e tocou as saias do vulto, que recuou involuntariamente.

— A senhora é boa. A única coisa boa neste inferno escuro e úmido.

Nos dias que se seguiram as visitas tornaram-se mais frequentes. De aparições esporádicas, aquela presença bem-vinda passou a ser diária, tendo oportunidades em que o vulto esteve com ele duas vezes no mesmo dia. As conversas também se deslocaram para outras searas. Thaïne (era esse o nome do vulto) lhe contou sobre o tempo, sempre chuvoso naquela estação do ano, sobre seu povo e sobre a guerra, eterna, infindável! Contou-lhe sobre os dias longos em que os gritos das batalhas se sobrepunham a algaravia dos pássaros, dos muitos que haviam partido para não mais voltar e dos filhos que deixaram aos prantos as mães zelosas.

— Por que vem aqui? — perguntou-lhe Viens.

Thaïne moveu um pé para fora da minúscula cela e ele temeu que, por suas palavras, ela o deixasse novamente. Tinha se apegado às visitas com uma devoção ferrenha, como alguém que espera sair o sol para começar a viver.

— Você... me lembra alguém... muito especial.

Silêncio!

Viens, sem perceber, se pegou brincando com a escuridão, criando formas no vazio, jogo que inventara para não enlouquecer nas longas horas de solidão em que a presença dela não trazia a luz para seus olhos.

— Obrigado.

Thaïne foi tomada pela surpresa.

— Por que me agradece?

Ele rabiscou com a ponta dos dedos os contornos de um rosto perdido pelo correr dos dias. Um rosto querido, agora ausente. Vhess!

— Antes de você chegar eu apenas ansiava a morte e a esperava neste cubículo escuro sem mais ter o que fazer ou pensar. Agora, de algum modo, sinto que ainda posso ter esperança, por mínima que seja, de sair daqui.

Thaïne nada disse. Apenas olhou-o (ou assim ele quis imaginar), lhe deu as costas e saiu.

E Viens não a viu mais. Por longos quatro dias a fresta de luz não apareceu e nenhum vulto se interpôs entre ela e a cela escura. A comida, agora rigorosamente posta duas vezes ao dia, era introduzida por uma portinhola localizada na base da porta. Porém, diferente de antes, apenas a comida entrava na cela, sem luz ou presença alguma.

No quinto dia, Thaïne voltou. No entanto, desta vez a luz não estava com ela e, de momento, Viens teve dificuldade em reconhecer seu vulto.

— Viens, acorde.

— Thaïne, o que...
Ela puxou-o pelo braço e tentou colocá-lo de pé. Contudo, dado o muito tempo de claustro, as câimbras e as dores que o tomaram de assalto, ele balançou perigosamente para trás e caiu.

— Você tem que fugir — disse ela, enérgica. — Agora!

E novamente desapareceu. Em seu lugar restou o espaço aberto, vazio, desafiador, deixando à mostra um caminho de pedras que se elevava à esquerda.

Viens levantou-se indeciso, se tanto pela fraqueza ou pelo temor do que o aguardava do outro lado da porta. Depois do longo tempo de escuridão, da certeza da morte, da falta de alimento para os olhos e para a alma, ver a forma imprecisa do calçamento de pedra lhe causava calafrios.

Os pés ultrapassaram o umbral com passos vacilantes e ele se viu diante de uma subida íngreme que não se lembrava de ter descido. Colou-se à parede úmida, os olhos vidrados num brilho longínquo, e se arrastou para fora daquele lugar de pesadelo. Outras celas, também escuras, úmidas, passaram ante seus olhos e sob suas costas, enquanto a luz se tornava cada vez mais próxima.

Um arco de pedras escuras deixava à mostra uma ampla câmara subterrânea onde uma centena de outros túneis se perdia na escuridão.

“Qual deles devo seguir?”, pensou, alarmado. Qual daquelas malditas bocarras negras poderia levá-lo para fora dali?

Escolheu aleatoriamente um túnel entre os mais próximos, escavado à direita de uma estranha máquina formada por engrenagens, múltiplas correias e roldanas, e avançou cambaleante. Infinitos minutos se passaram até que, desgraçadamente, ele se viu diante de uma dezena de soldados armados que rondavam outros tantos que dormitavam ou se banqueteavam ou testavam a sorte num jogo curioso, mescla de argolas e peças retangulares dispostas sobre um tabuleiro heptagonal.

Viens recuou às pressas, antes que os soldados o vissem, e aguardou. Escolhera o caminho certo, mas como passaria por tantos deles?

Retornou à primeira galeria e escolheu outra passagem, um túnel menor localizado imediatamente a direita de onde saíra. Passos incertos o levaram até um portão de madeira crua, apequenado e sem importância aparente, cuja tranca estava enlaçada por uma corrente gasta de onde pendia um cadeado, também envelhecido. Viens puxou-o com força na esperança de criar uma abertura por onde pudesse se esgueirar, mas o espaço era insuficiente até mesmo para seu corpo franzinho. Então, lembrou-se que no chão da câmara principal havia dezenas de pedras soltas e, de posse de uma delas, poderia quebrar o lacre e avançar. A resistência foi pouca e, vencido o obstáculo, ele se viu num largo corredor mal iluminado, todavia limpo e desprovido daquele fedor nauseabundo que impregnava as celas subterrâneas.

— Ele não resistirá a mais uma noite — a voz o surpreendeu a meio caminho rumo à fraca luz e Viens retrocedeu assustado de volta para as sombras protetoras. Dois soldados passaram apressados e desapareceram corredor afora, permitindo-lhe seguir até o lugar de onde eles haviam saído.

Uma porta!

Símbolos diversos ocupavam todo o umbral, desenhos que, pelo modo peculiar com que foram talhados, deviam servir de proteção à entrada. Viens empurrou-a com cuidado, entrou e se viu num quarto parcamente iluminado, adornado apenas com uma cama, posta no centro do aposento, e por cinco torres que a circundavam, onde ardiam chamas de diferentes matizes, vermelho, azul, amarronzado, branco e um que não era precisamente fogo, mas que aparecia e desaparecia com um bruxuleante ondeio semitransparente. Mais afastada, uma sexta coluna se elevava solitária por entre a semiescuridão da câmara. E sobre a cama, coberto por faixas e unguentos de cura, um jovem jazia deitado.

Viens aproximou-se, até que o rosto do jovem tornou-se nítido entre as brumas que o cercavam. Tinha praticamente a sua idade, cabelos lisos emoldurando um rosto de expressão sofrida e um corpo que já fora forte, mas que agora apresentava as marcas macilentas de uma prostração demorada. Viens ergueu a mão e tocou sua face: queimava. Quem quer que fosse, aquele jovem estava prestes a morrer.

— O que faz aqui? — Uma voz alarmada, carregada de dor, cruzou a câmara vinda da porta entreaberta.

— Você?! — Viens afastou-se e encarou a sombra que o libertara, a mulher que lhe trouxera alento em meio aos longos dias de escuridão.

— O que faz aqui? — repetiu ela, correndo para ele, os olhos, no entanto, postos no jovem deitado ao seu lado. — Disse para partir. Por que não fugiu?

— Eu... procurava a saída e... — Viens acompanhou os gestos aflitos de Thaïne e, afinal, percebeu. — Ele... é seu filho, não é?

Ela não respondeu de imediato. Após enxugar o suor e apartar uns quantos fios de cabelos da testa do rapaz, virou-se para ele e falou com uma rispidez que a princípio o assustou e, depois, o comoveu:

— Saia daqui, agora. Antes que...

As portas se escancararam e um vento selvagem invadiu a câmara, agitando as chamas das torres e arremessando–o violentamente contra a sexta coluna de pedras. Viens segurou um grito de agonia quando uma pontada o fez levar as mãos às costas. Porém, no instante seguinte, correntes de ar invisíveis ergueram seus braços e os ataram à coluna, acima de sua cabeça.

— Nosso convidado não irá à parte alguma — um senhor alto, de vestes longas e gestos enérgicos entrou na câmara, os olhos faiscantes postos em Viens. Atrás dele, precedendo seis soldados armados de longas cimitarras, uma figura negra, de aparência simiesca, fez um gesto brusco e os ventos abrandaram até desaparecerem por completo, restando em seu lugar apenas grossas correntes que prendiam os braços de Viens à coluna de pedra.

— Ora, ora. Que raro encontrá-lo aqui, uma vez que deveria estar em seus... aposentos — continuou ele, ao mesmo tempo em que lançava um olhar desaprovador a Thaïne.

Ela encolheu-se atrás da cama e, amedrontada, desviou o olhar.

— Chega desta loucura, Liardh. — Ela segurou com mais força a mão do jovem enfermo entre as suas, olhou-o mais uma vez e continuou: — Ele não aprovaria isso. Nosso filho não...

— Cale-se — disse ele secamente — Não chegamos até aqui para que você ponha tudo a perder por simples piedade.

Liardh foi até ela, o semblante envelhecido riscado por uma careta tresloucada, misto de raiva e desespero. Pegou-a rudemente pelos braços e a puxou para junto de si.

— Olhe para ele. OLHE! Acha justo o que aconteceu? Acha que devemos entregá-lo às mãos do destino sem sequer lutar? — Virou com a ponta do dedo o rosto de Thaïne, que lentamente se desvencilhou e voltou a fitar os próprios pés — Sabe que temos que fazer isso. Não há outro meio. O tempo corre mais e mais depressa e as mãos de Lwryanne já não podem segurá-lo indefinidamente.

Ele lançou uma olhadela automática para a feiticeira negra que se esgueirava, tal qual uma serpente, até os lados da cama.

— Afaste-se dele — esbravejou Thaïne, ao notar mãos informes dançando sobre o rosto do filho. A bruxa negra nada disse, apenas voltou para as sombras e aguardou.

— Thaïne, por favor. — suplicou Liardh, e havia uma nota de desesperadora verdade em seu apelo.

— Mas... ele é só uma criança, como Jahred.

— Ele é só um camponês - explodiu Liardh — Um qualquer, sem nome ou história. Alguém que passará pela vida sem acrescentar à sua melodia eterna uma ínfima nota sequer. Como ousa compará-lo a nosso filho? — Ele tornou a sujeitá-la pelos braços, agora com mais força. — Se ele tem que servir para algo, se sua existência medíocre realmente tem algum valor, que seja para trazer de volta nosso filho.

Thaïne deixou pender a cabeça, as lágrimas escorrendo sobre a face consumida pelos dias de dor até sumir por entre os vincos do colo.

— Eu... sinto muito.

Num gesto rápido, ela puxou os Maháe que pendiam do cinturão de Liardh e os arremessou, primeiro um, depois outro, com uma força e precisão que não faziam jus à sua figura frágil, destruindo as amarras que mantinham Viens preso.

Ele desabou coluna abaixo, caindo de qualquer jeito e tentando se recompor tão rápido quanto lhe permitia sua persistente fraqueza.

— NÃO! — gritou Liardh — Lwryanne, prenda-o.

A bruxa fez um gesto de invocação, mas Thaïne, novamente de posse das esferas prateadas, lançou-as desviando sua atenção, ao mesmo tempo em que Viens se jogava cambaleante sobre um dos guardas na tentativa de tomar-lhe a espada.

Porém, vencido o soldado — mais pela surpresa do ato que pela força do ataque —, ele sequer teve tempo de usar a arma recém conquistada, pois uma chama negra, feita de salamandras faiscantes, irrompeu do alto da sexta coluna paralisando a todos. Uma densa fumaça começou a se espalhar por toda a câmara, como se as sombras ganhassem vida e teimassem em assumir forma diante de seus olhos amedrontados. Enquanto o fogo negro que as alimentava tomava corpo e se avolumava, os fogos das outras cinco colunas bruxulearam e diminuíram sensivelmente de tamanho.

Viens recuou assustado e parou no limiar da porta, lugar até há pouco ocupado pela guarda senhorial de Liardh.

— Uma alma pela outra — uma voz arrastada, desacostumada ao idioma comum, se propagou pelo ar — Este é o acordo!

As salamandras negras rodopiaram no ar transformando-se em espirais que se desprenderam da coluna de pedra, desceram e assumiram feições imprecisas, vultos maltrapilhos com gesto e forma humana.

Azoreus, d’arennór de hyén5 — disse a feiticeira.

Ao ouvi-la, as duas figuras viraram na direção de Viens e avançaram. Aterrorizado, ele sentiu como se suas pernas não mais o obedecessem e, parado que estava mais parado ficou, até que o bafo quente que se desprendia de uma das criaturas o tirou do torpor no qual havia imergido. Mais por instinto que por ciência, ele girou a cimitarra em arco golpeando-a na altura da cintura, o que a fez recuar em meio a um grito inumano de agonia. Outra tentativa e novamente Viens a rechaçou com o aço da espada.

— O que... o que são estas coisas? — gritou ele.

Condutores — respondeu-lhe Thaïne — São condutores de almas. Criaturas do submundo. Não os deixe tocá-lo.

Com gesto nervoso e pouco firme, Viens começou a girar a arma em círculos à sua volta, criando um perímetro de defesa de pouco mais que um metro de diâmetro. As criaturas retrocediam a cada nova volta da espada e, após mais uma ou duas tentativas de aproximação, passaram a rodeá-lo, como um animal faminto faz com a caça acuada. Não obstante, continuaram buscando meios de se aproximar, porém toda vez que ensaiavam uma nova investida, Viens lhes mostrava o brilho da espada e elas recuavam novamente.

Lwryanne sibilou qualquer coisa ininteligível e as duas criaturas, esquecendo-se dele, se voltaram para outro lado. Ao percebê-las próximo de si, Liardh se desesperou.

— Não! Afastem-se! Lwryanne, afaste-os de mim.

Mas a bruxa Medho sequer lhe prestou atenção. Ambos os condutores de almas o envolveram e a escuridão de suas vestes o suspendeu no ar. Liardh se debateu e lutou, mas era como duelar contra o vazio, contra o frio nada.

— Liardh, não! — Thaïne agarrou as armas e avançou contra a nuvem negra que envolvia seu marido. — Deixem-no em paz.

Os Maháe atravessaram um dos Azoreus, que se desintegrou no ar para logo depois reaparecer sobre ela, jogando-a no chão. Ela reergueu-se espavorida, apenas a tempo de ver Liardh cair inerte e uma nuvem negra, a mesma que há pouco tomara seu marido, cobrir o corpo do filho.

Thaïne correu até ele, mas uma força invisível a impediu de se aproximar. Era como se o próprio vento lutasse contra sua vontade de socorrer o filho. Ela gritou e gesticulou e atirou a última arma contra a parede invisível, apenas para ver seus esforços serem em vão.

— Por favor, ajude-me! — suplicou ela a Viens.

Ele reuniu as parcas forças que ainda lhe restavam e se atirou, espada em punho, contra as colunas, mas os ventos cobraram vida e o empurraram de volta à porta. Novamente ele tentou e novamente foi impedido por mãos invisíveis.

— O acordo deve ser concluído — Lwryanne apareceu por detrás da coluna, as mãos apenas se movendo perceptivelmente, direcionando os ventos contra Viens e Thaïne.

E, um segundo depois, tudo estava acabado.

A nuvem negra reassumiu a forma imprecisa do Azoreus e regressou, junto a seu irmão, para a chama sobre a coluna de pedra, para logo depois desaparecerem num estalido lânguido.

O brilho das demais torres foi-se apagando gradativamente, até restar na câmara apenas a luz baça proveniente do corredor.

— Bruxa maldita — Thaïne levantou-se furiosa e investiu contra Lwryanne, as mãos nuas e crispadas tal qual garras.

— Está feito. O acordo foi aceito — disse ela, e desapareceu antes que Thaïne tivesse chance de alcançá-la.

Viens largou a espada e correu para ajudá-la, mas ela o repeliu violentamente.

— LARGUE-ME! Tudo isto é culpa sua. Você deveria ter feito o que eu disse, deveria... oh, deuses! Liardh, o que foi que eu fiz? — e caiu num choro convulsivo, agarrada ao braço de Viens.

Ele a apertou mais contra si, ignorando os socos e espasmos agressivos. Ficaram assim por um tempo que ele não soube precisar, até que um murmúrio fraco se sobrepôs ao choro de Thaïne.

— M-mãe?

Ela não entendeu de imediato o significado daquele som, até que a repetição da palavra, duas, três vezes, a trouxe de volta à vida. Os soluços deram lugar a esforços desesperados para se por de pé e, mal o teve diante de seus olhos incrédulos, Thaïne se lançou sobre a cama, para junto do filho desperto.

— Jahred. Você voltou!

Ele retribuiu o abraço de forma desajeitada, como se não compreendesse a totalidade do gesto.

— Mãe, eu tive um sonho... Havia um abismo escuro e meu pai...

Mas Thaïne não o deixou continuar. Cuidadosamente, ela o deitou em seu colo, embalando seu descanso com uma canção entremeada de pequenos soluços.

A guarda, devidamente reforçada por mais uns quantos soldados, reapareceu no limiar da porta e, ao verem seu senhor caído aos pés da cama, investiram furiosos contra Viens.

— Deixem-no — ordenou bruscamente Thaïne, ao que os guardas retrocederam, perplexos. — Já acabou. Vá para casa, criança. Ninguém o impedirá.

E, após confirmar a ordem com um olhar severo, voltou sua atenção e cuidados para o filho.
Viens levantou-se indeciso, dedicou-lhe um meneio de cabeça, que ela sequer percebeu, atravessou a maré de guardas que o fitavam e desapareceu na penumbra do corredor.

A primeira hora da manhã o encontrou parado nas cercanias do castelo, absorto. Abaixo, nos vales e além, o mundo seguia sua rotina diária de acontecimentos, alheio à sua desventura. Viens olhou para o norte e para o leste, acima e abaixo dos vales longínquos, mas não viu em seus recortes nenhum caminho que poderia seguir.

Thaïne lhe havia dito que voltasse pra casa, mas o fato é que ele já não tinha mais casa para onde voltar. E, presa desta triste verdade, Viens fez a única coisa que ainda lhe cabia fazer: deu o primeiro passo naquele caminho rumo às incertezas dos seus novos dias.


_________________
1 — Dhëmonna: a morte benfazeja; um dos dois aspectos da morte thargoriana.
2 — Nehrain, as Terras Imortais. Ilha situada na região sul de Thargor, conhecida como o paraíso terrestre, para onde vão as almas dos homens.
3 — Heyjia: Espécie de grão fino muito apreciado pelo povo Hhaldór.
4 — Quarta idade: período da vida thargoriana que corresponde à aproximação da velhice, por volta dos 150 anos [60, na idade dos homens da Terra].
5 — Traduzido do Anthár: “cobrem o acordo”.

2 incursões:

  1. muito bom ....Oo
    bju
    Pam.

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