Thély en Nehraêdos, os Contos das Terras de Lá.
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.
Legião Urbana (do álbum V).
— Vovó, a senhora esteve na guerra?
Olhinhos miúdos, que sequer tinham visto a beleza do sétimo sol, fitavam quase sem pestanejar o rosto passivo da anciã. As chamas altas da fogueira davam um ar de magnitude às sombras que dançavam sobre os vãos das rugas, atribuindo-lhe qualquer capacidade mágica que a tornava, mais do que uma contadora de histórias, uma criadora de mundos.
— Esteve mesmo, vovó? — Repetiu a menina, orgulhosa e, ao mesmo tempo, apreensiva diante da resposta que não chegava.
— Sim, minha pequena – respondeu ela, acrescentando mais um galho seco aos muitos que já choravam diante da voracidade do fogo. – Eu estive.
Um sorriso de triunfo deixou à mostra o vão do dente recém-perdido, enquanto a menina se vangloriava daquela verdade fantástica que tornava sua avó e, por consequência, a ela mesma, algo maior que uma simples aldeã, maior que os outros pequenos que a rodeavam.
— Pode nos contar sobre a guerra? – Pediu outra criança, talvez um ano mais velha que sua neta, talvez uma vizinha, ou alguém que viera, como tantos outros, para os dias de festividade.
Um brilho de franca tristeza pareceu se desprender da fogueira e ocupar os espaços ainda vazios de seu rosto, e lembranças antigas, amargas, voltaram a trilhar os caminhos da memória, desgastados que estavam pelos anos de prática do esquecimento.
— A guerra não rende boas histórias, crianças – disse ela, decidida a não trazer de volta acontecimentos que haviam sido mortos pela inexorável ação do tempo. Porém, ao notar as carinhas que a fitavam desencantadas, concluiu — mas, posso lhes contar sobre os dias em que o mundo viu nascer a lenda do Cavaleiro Verde.
A manhã surgiu vagarosa por entre as brumas, como se temesse ser engolida pela visão que se prolongava à frente. Um sol impetuoso rompeu a incerteza do dia e iluminou os campos de guerra, revelando uma extensa mancha amarronzada que se perdia ao longe, rumo ao sopé de uma montanha. Um acampamento. Dezenas, centenas, talvez milhares de tendas e carros e animais de guerra que se espalhavam pelo chão lamacento, avançando rumo às encostas enegrecidas e cobrindo vales desprovidos do verde que antes lhe enfeitava a face, resultado da tempestade raivosa que se abatera sobre eles e do último dia da batalha entre dois exércitos que não pertenciam àquele lugar.
E, em meio às armaduras negras e rostos enfurecidos, espadas que insistiam em não voltar à sua morada e insultos ditos numa língua antiga, uma carruagem seguia imperturbável rumo à montanha que guardava aquela terra de sombras. Em seu interior, três guerreiros, mãos e pés acorrentados, recebiam no rosto os últimos pingos da chuva que já se afastava para longe, como se temesse, também ela, cair prisioneira dos Senhores do Norte.
Eram os únicos sobreviventes de um exército de mais de dez mil guerreiros que havia duelado por toda a longa noite, e capitulado junto aos primeiros clarões da manhã. Continuar vivos era, para eles, tão surpreendente quanto à visão do grande acampamento que se formara da noite para o dia.
A carruagem virou à esquerda, cobrindo os passos dos robustos animais que a puxavam, e começou o lento processo de subida, seguindo um caminho tortuoso que levava montanha acima, à fortaleza que a subjugava. Atravessaram um arco de pedras negras, pararam no interior de um amplo pátio e, como se exaustivamente ensaiado, um grupo formou-se rapidamente para escoltá-los ao interior da construção. À volta, dezenas de criaturas de sonhos ocupavam nichos espalhados entre as muralhas menores: dragões negros, enormes, ferozes, as temíveis montarias dos Senhores do Norte. No chão, logo abaixo, jaulas de tamanhos incomensuráveis mantinham prisioneiros outra sorte de criaturas, dragões todos eles, porém, amarelos, azuis, vermelhos e... um único e solitário dragão verde!
— Dragões, dragões de verdade? – Um dos pequenos, todo olhos e ouvidos e atenção, perguntou maravilhado.
A contadora de histórias remexeu num dos galhos da fogueira e as labaredas reproduziram, nos olhos e na imaginação dos atenciosos espectadores, uma pequena fera alada que subiu em espiral até desaparecer em meio à fumaça e, sem alterar o tom da narrativa, continuou:
— Durante os dias de guerra, muitos dragões duelaram em ambos os exércitos. Mas, dentre todas as raças conhecidas, duas jamais haviam tomado partido, seja em aliança aos homens, seja em favor dos Senhores do Norte. Os míticos dragões brancos e... os dragões verdes.
— Meu pai disse que os dragões verdes vivem na floresta próxima à nossa aldeia – um menino de olhos grandes e mãos cingidas aos joelhos quis trazer para si um pouco da glória daquela história, mas foi duramente repreendido por outra criança.
— Shh!
A cela onde foram jogados era um cubículo imundo e escuro, encravado no seio da montanha. Um dos guerreiros, cuja perna havia sido dilacerada durante a luta, mostrava-se cada vez mais debilitado, e a situação só tendia a piorar.
— Vocês... têm que sair daqui – disse ele, entre espasmos de dor.
O outro guerreiro aproximou-se e, com um trapo sujo, enxugou o suor de sua testa.
— Não vamos a lugar nenhum, meu amigo. Não sem você.
Ele o empurrou para longe, em protesto, reunindo as parcas forças de que ainda dispunha.
— Se for... meu destino morrer nesta cela, que seja. Mas... não sejam... estúpidos em desperdiçar esta chance. Quando o carcereiro vier... por meu corpo, vocês devem... vocês... – sua respiração tornou-se mais ofegante e a cabeça tombou para trás, batendo contra a parede. O guerreiro segurou-o e o deitou no chão frio.
— Ele está...?
— Não, ainda respira. Mas, já não podemos fazer nada por ele.
A jovem o olhou, abismada, como se antevendo o que aconteceria.
— Não está pensando em...
No entanto, ele não lhe deu atenção. Apoiando as mãos nas grades, gritou ao vazio por ajuda. Uma, duas, três, dez vezes... até que uma sombra apareceu entre as grades e grunhiu qualquer coisa ininteligível. Um rangido seco anunciou a abertura da porta e dois passos indicaram que algo havia entrado. Sem esperar, o guerreiro jogou-se sobre o carcereiro e ambos rolaram pelo chão imundo da pequena cela.
— Eles conseguiram escapar, vovó? — A pequena não se conteve.
— Sim, escaparam. Mesmo tristes por deixar para trás o companheiro, eles escaparam. Mas, a fuga não foi fácil. Após deixarem os labirintos das masmorras, esgueirando-se por frestas escuras, eles se viram novamente perdidos, vagando pelos amplos salões da fortaleza.
Outra porta apareceu diante deles e, por detrás dela, novos ruídos. Já haviam passado por dezenas de câmaras; em algumas, tiveram que rastejar pelo chão, entre pilhas de lixo e escombros; em outras, serviram-se tão somente do tato, para não serem tragados pela escuridão. Contudo, aquela porta...
Empurram-na devagar, mas não puderam evitar que um lamento triste se desprendesse da madeira, fazendo coro a outro que os alcançou em seguida, vindo de algum lugar da câmara. Entraram, e foram tomados pela surpresa. O dragão verde, a fera alada que viram no pátio, jazia caído ali, subjugado por uma sinistra figura de negro de cujas mãos saiam feixes de luz que o enlaçavam, como correntes. Mais afastado, um guerreiro de aparência simiesca observava, interessado, todos os movimentos da feiticeira.
O dragão se contorcia e girava a cabeça, tentando evitar as luzes que feriam seus olhos, mas a cada novo esforço, mais fortes se tornavam os grilhões que o prendiam.
— O guerreiro de negro!
— Também o vi. Foi ele quem liderou as bestas negras durante o último ataque. Ao que parece, outro dragão deverá substituir aquele que morreu em batalha.
— Como sairemos deste lugar?
Ele correu a vista pelo salão, analisando todas as possibilidades, e parou num ponto específico.
— O dragão. Temos que ajudá-lo. Se o libertarmos, talvez ele nos tire daqui.
De posse de uma das armas que tomara ao carcereiro, ele pediu-lhe que esperasse e se esgueirou até um ponto entre o dragão e a feiticeira. À distância, teria a chance de apenas um arremesso. Um golpe! Preciso o suficiente para matá-la.
As mãos se encresparam no cabo da espada e, num segundo, a arma voou pelo salão e partiu em dois o manto negro. Com o impacto, a feiticeira foi arremessada para trás, envolta pelas correntes de luz que até há pouco prendiam a criatura.
— Agora! — gritou ele – Ataque-o agora!
A jovem saltou das sombras, espada firme, e investiu contra o guerreiro de negro, mas foi facilmente rechaçada, não lhe despertando sequer o mais leve interesse. Seus olhos e sua espada tinham, afinal, outro destino.
O dragão, ainda atordoado, encarou-o sem entender e o guerreiro, como incentivo, cortou as amarras que o mantinham preso. Porém, mal terminada a tarefa, uma sombra desceu sobre ele, mortífera. Espada e adaga se cruzaram e o choque arremessou-o para longe. Outra investida e novamente suas defesas não resistiram à força do ataque do senhor daquele castelo. A jovem levantou-se e correu para ajudá-lo, mas a meio do caminho, seus joelhos fraquejaram ante a visão da queda de seu companheiro diante da espada inimiga.
O guerreiro de negro virou-se lentamente e começou a caminhar a seu encontro. Ela nada fez, apenas o observou aproximar-se. Contudo, algo mais também o vira e, com um violento golpe, o dragão jogou-o longe, através das grossas portas do salão.
Ela correu para junto do guerreiro caído, apenas a tempo de ouvir seu último suspiro. E, pela segunda vez naquele dia, a sombra da morte apareceu diante de si. No entanto, a dor, desta vez, era mais presente, pois aquele que caíra era seu...
— Humana — a voz grave cortou o ar, tirando-a da letargia em que se encontrava. Ela ficou ainda um segundo ao lado do companheiro; depois, retirou de seu pescoço um pequeno talismã, virou-se e encarou o grande dragão.
— Não posso deixá-lo.
Um aceno e ela subiu em suas largas costas. O dragão curvou-se sobre o corpo caído e o tomou entre as garras e, juntos, eles deixaram a fortaleza para trás e se embrenharam nas nuvens altas que dominavam a noite.
Porém, sua partida não passou despercebida e, mal alcançaram altura, cinco espectros negros surgiram em seu encalço, furiosos.
— Mas, ela escapou, não foi, vovó?
A contadora de histórias voltou os olhos cansados para a neta, e assentiu levemente.
— Ela escapou. Porém, teve de lutar contra seus perseguidores, tendo apenas a coragem de seu novo amigo e uma espada como aliados. E diz-se que, naquela noite, as nuvens negras foram varridas dos céus pela força das chamas e do metal e que uma nova alma foi forjada pelas lágrimas da tristeza e pela necessidade da luta.
— Uau! Então, o Cavaleiro Verde era uma mulher?
A velha nada disse. Apenas continuou atiçando as chamas da fogueira, os olhos mortos, enquanto as crianças discutiam a história recém-terminada.
Sem que percebesse, as mãos correram por sobre as vestes à procura de um talismã que repousava ali, em seu peito, desde uma longínqua noite que fora obscurecida pelos fantasmas de outras guerras.










Senhora modesta essa... Muito bom, Rober!
ResponderExcluirValeu, Diógenes.
ResponderExcluirBom te ver por aqui. Abraço
Muito bom o conto, parabéns, conheci o seu blog hoje e gostei do que li, depois dou uma lida no resto.
ResponderExcluirAbraços.
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Meu Deus, que blog é esse?
ResponderExcluirEstou simplesmente encantada, desde o primeiro clique!
Adorei o blog, muito 10 mesmo!
Continue assim!
Uma ótima semana,
abraços&beijos
BeFontana*
Eu tava devendo uma visita faz tempo...
ResponderExcluirJuro que volto pra olhar tudinho com calma.
Senhorinha danada, né?
Beijos!